Quinta-feira, Setembro 28, 2006

O Mar

O mar começa com uma única e solitária gotícula, brotando das mais recônditas escarpas. Nasce cristalino e pobre, sem saber ao certo o que o espera. Nasce bem no alto, lá nas grimpinhas dos morros.

O mar nasce incógnito, na terra da sua inimiga, a montanha.

Esse mar imenso, inesgotável, salgado, nasce pequenino e indefeso; frágil, puro e potável. Tão logo vem à luz já desliza pedreira abaixo, numa desescalada louca, atávica, sem tempo pra descanso, sem chance pruma conversa com as piabinhas, sem prazo sequer prum aceno pras avencas. É só a descida louca, sem fim, uma necessidade desesperada de ter que se juntar ao oceano.

Cai num poço, conhece os bagres, prova o gosto dos barrancos que irão entupir os rios. Sente o perfume dos águas-pé. E continua a sua descida mágica. Cai, enfim, num rio que não lhe reconhece a origem e não identifica o seu porque. Torna-se mais um na multidão, sem identidade, sem família, sem amigos. Mas mesmo assim e apesar de tudo, continua sua descida em direção ao desconhecido.

Por fim, derrama-se no caudal imenso da foz do rio e se aninha no seio do nada de que se originou.

“A parte não é parte sem o todo mas, da mesma forma, o todo não é todo sem a parte”

Sábado, Setembro 09, 2006

Texto da Lilian Honda

Contigo usei palavras como quem queima fósforos. Sei que lembras da frase que tomei de empréstimo para ti: “a gramática nos impede de sentir a dor do outro”; e, se existe um deus guardião das palavras, há de ter-me perdoado o pequeno delito, porque nunca alguém conseguiu ser tão precisa na hora mais precoce, ainda que travestida de letras que não eram suas.
Nada nos une além de um punhado de palavras. Tu sabes e eu sei os nomes das cores da luz: violeta, azul, verde, amarelo, cor-de-laranja e vermelho. Mas um bretão ou um galês têm apenas glas para tudo o que há entre azul e verde. Outra gente tem apenas um nome para cada metade daquela paleta. Eis a síntese de tudo o quanto fomos capazes de perceber um do outro.

Eram vagalumes, não fósforos. E o que te dizem os vagalumes na noite que há entre nós? Aquilo que escrevi, o “bastardinho”, como tu o chamas e que guardas no papel amassado dentro do bolso do jeans, é teu. Só teus olhos o vêem. Nada de mim está ali porque tu mesmo o inventaste ao ler. Porque as minhas cores têm o nome das tuas, mas do espectro da luz mal percebemos a sombra.