Acabei de ver "Romeu and Juliet", uma adaptação belíssima de Keneth Mac Millan, coreografia e direção musical de Genady Roshdestvensky, para o Royal Ballet of London. Canal 171 (êpa!) Film&Arts da Directv. Endereço certo de bons programas.
Cenários de perder-se o fôlego, atuação exuberante dos protagonistas, figurinos idem, idem, idem, música soberba. Sem exagero, no "gran finale" algumas e parcas lágrimas me vieram aos olhos, rápida, vergonhosa e diligentemente enxugadas pelo absurdo que seria um velho se derretendo diante da família por causa de um mero balé. Mas essa emoção deu-se muito pela magistral encenação e mais, muito mais, por "Romeu e Julieta" ter sido, ao lado de mais uns dois ou três filmes marcantes, a minha inciação nas artes do amor. Coisas dos anos 70. À galerinha que me assiste, minhas desculpas pelas reminiscências.
Tergiversei e não disse a que vim. O seguinte é esse: "Romeu e Julieta" e tantas obras de reconhecido valor foram engendrados sob uma era de cruel repressão, sob um obscurantismo impossível de ser reconhecido nesses nossos tempos de liberdade a qualquer custo, de viagens virtuais, de falta de tempo pra apreciar-se a vida na sua plenitude, longe do computador. Nos anos vinte, pobreza acentuada no mundo inteiro, o cinema explodiu. Nos cinqüenta, logo o após guerra, o rock mudou a face da terra. Nos setenta, crise do petróleo, os japoneses deitaram e rolaram.
Pra não encompridar, a maioria da melhor produção cultural brasileira também obedeceu a essa irrequieta dicotomia: quanto mais escuro, mais a gente se sacode, mais a gente produz, mais se tem motivo pra gritar a vontade de ser feliz. Quanto mais grilhões, mais a produção artística prolifera.
Que venham as pedras.