Aconteceu sem que eu tivesse premeditado. E nunca, mas nunquinha mesmo, sonharia o desfecho.
Comigo acontece sempre assim, não sei o porque; já tentei budismo, catolicismo, yoga, espiritismo. o cacete a quatro dos "ismos" ; eu fico elaborando, meditando, imaginando situações. E quando acontece é sempre assim de repente, como um dilúvio bíblico, como uma reunião de família, onde os homens se entopem de álcool e as mulheres se embebedam de fofocas.
Eu quero falar de amor. Quero falar de um homem que já tinha desistido do conceito vão dessa palavra. Quero falar de um homem que há tempos houve por bem trocar os sonhos pelas realizações. Não porque não tivesse vivido intensamente, mas pela simples e idiota constatação de que vive-se pra construir e sonha-se pra destruir. Ou desistir, tanto faz.
Há tempos, cerca de dois anos passados, conheci uma pessoa, dentre várias, por intermédio de um programa de rádio, que se propunha ser uma espécie de cupido modernoso. Esse programa consistia na recepção de ligações telefônicas de pessoas interessadas em parceiros para possíveis relacionamentos e as processava, com a ajuda de uma equipe, de forma que, passado algum tempo, tinham mapeado quem gostava de quem, quem gostava de churrasco, quem estava desesperado por um amor, quem tava ali só pra conseguir uma trepada sem compromisso. E colocavam os possíveis "parceiros" em contato, mediante autorização de cada um. Por e-mail.
Eu telefonei pra eles. Disse das minhas dores, dos amores que nunca tive, das raivas que sempre passei e da desesperança que enfim havia tomado de assalto meu coração desenxabido. E, sem esperança de resposta, renovei o uísque com mais pedrinhas de gelo e preparei a rede na varanda pra mais uma noite de sono completa.
Duas semanas depois a pessoa de quem eu tinha ouvido falar no programa de rádio, me mandou um e-mail temeroso, perguntando se podíamos ser amigos virtuais. Eu disse que sim, tremendo de febre e de amor. Esperei a noite inteira, esperei mais um dia normal e mais outra noite infeliz e mais um dia de cão pela resposta dela.
Enfim ela me contactou. Já veio poderosa, com fotos, falando da família, do namorado, dos filhos, das vicissitudes por que tinha passado na vida, do tempo em que foi feliz e pilantra no Recife. Falou das amigas, me perguntou se eram tão belas quanto ela, conversou comigo como se estivéssemos almoçando na casa da sua mãe. Lembro que ela disse que não achava muita graça em Garcia Marques, mas eu também rebatia que Richard Gere era um artista menor.... Assim, como se fôssemos velhos amigos, como se fôssemos aqueles primos que no passado tinham brincado de médicos. Ali começou o que eu achava que seria o paraíso e continuou durante tanto tempo que até hoje me pergunto se meus devaneios são uma devassidão não realizada ou o mais puro amor que já me propus amar..
Não sei dizer exatamente quanto tempo me apaxonei por essa mulher desconhecida e não trepada e não amada . Não sei nem dizer se ainda não a amo.