Quarta-feira, Maio 31, 2006

Promessa

O meu dia comum
se transforma e começa e termina sempre
nesse lago profundo e imprevisível
dos teus olhos mediterrâneos.

A minha vidinha medíocre
se debate e se afoga
na luz diáfana
rebatida nos teus cabelos de árabe
nas tuas mãos libanesas,
no teu sorriso oriental,
na tua petulância palestina
e no teu gozo inverossímel.

E o meu ocaso se realiza
na mansidão das tuas palavras,
na lentidão do teu amor,
na maciez do teu sono,
na bondade do teu sorriso matinal.

Dândi

Quinta-feira, Maio 25, 2006

Diana

Aconteceu sem que eu tivesse premeditado. E nunca, mas nunquinha mesmo, sonharia o desfecho.

Comigo acontece sempre assim, não sei o porque; já tentei budismo, catolicismo, yoga, espiritismo. o cacete a quatro dos "ismos" ; eu fico elaborando, meditando, imaginando situações. E quando acontece é sempre assim de repente, como um dilúvio bíblico, como uma reunião de família, onde os homens se entopem de álcool e as mulheres se embebedam de fofocas.

Eu quero falar de amor. Quero falar de um homem que já tinha desistido do conceito vão dessa palavra. Quero falar de um homem que há tempos houve por bem trocar os sonhos pelas realizações. Não porque não tivesse vivido intensamente, mas pela simples e idiota constatação de que vive-se pra construir e sonha-se pra destruir. Ou desistir, tanto faz.

Há tempos, cerca de dois anos passados, conheci uma pessoa, dentre várias, por intermédio de um programa de rádio, que se propunha ser uma espécie de cupido modernoso. Esse programa consistia na recepção de ligações telefônicas de pessoas interessadas em parceiros para possíveis relacionamentos e as processava, com a ajuda de uma equipe, de forma que, passado algum tempo, tinham mapeado quem gostava de quem, quem gostava de churrasco, quem estava desesperado por um amor, quem tava ali só pra conseguir uma trepada sem compromisso. E colocavam os possíveis "parceiros" em contato, mediante autorização de cada um. Por e-mail.

Eu telefonei pra eles. Disse das minhas dores, dos amores que nunca tive, das raivas que sempre passei e da desesperança que enfim havia tomado de assalto meu coração desenxabido. E, sem esperança de resposta, renovei o uísque com mais pedrinhas de gelo e preparei a rede na varanda pra mais uma noite de sono completa.

Duas semanas depois a pessoa de quem eu tinha ouvido falar no programa de rádio, me mandou um e-mail temeroso, perguntando se podíamos ser amigos virtuais. Eu disse que sim, tremendo de febre e de amor. Esperei a noite inteira, esperei mais um dia normal e mais outra noite infeliz e mais um dia de cão pela resposta dela.

Enfim ela me contactou. Já veio poderosa, com fotos, falando da família, do namorado, dos filhos, das vicissitudes por que tinha passado na vida, do tempo em que foi feliz e pilantra no Recife. Falou das amigas, me perguntou se eram tão belas quanto ela, conversou comigo como se estivéssemos almoçando na casa da sua mãe. Lembro que ela disse que não achava muita graça em Garcia Marques, mas eu também rebatia que Richard Gere era um artista menor.... Assim, como se fôssemos velhos amigos, como se fôssemos aqueles primos que no passado tinham brincado de médicos. Ali começou o que eu achava que seria o paraíso e continuou durante tanto tempo que até hoje me pergunto se meus devaneios são uma devassidão não realizada ou o mais puro amor que já me propus amar..

Não sei dizer exatamente quanto tempo me apaxonei por essa mulher desconhecida e não trepada e não amada . Não sei nem dizer se ainda não a amo.

Sábado, Maio 13, 2006

Um dia diferente

Foi no elevador. O maldito já vinha cheio desde o térreo mas eu não tinha mais tempo pra esperar outro e entrei assim mesmo. Sabe, a correria da vida às vezes não nos permite escolhas e um elevador entupido a mais ou a menos faz pouca diferença diante da impetuosidade dos compromissos.

Vez em quando me ocorre pensar sobre o que há de tão importante nessa merdinha de mundo que nos leva a ceder às insanidades que decorrem do progresso.

Mas voltemos ao elevador. Entrei e fui recepcionado por uma miríade de rostos rosnando. Não cabia mais ninguém mas eu precisava subir. Entre o desagrado de me acotovelar e a necessidade de viajar, escolhi a segunda opção.

Fui me imprensando e imprensando as pessoas, gente resmungando "que merda é essa, esse cara não se enxerga, podia esperar um pouco mais , tinha que entrar logo agora, porra!..".Acabei por achar um cantinho vago, ao lado de uma mulher de seus trinta e oito, quarenta anos, por aí. Não era uma bonitona, gostosona, era uma mulher normal. Lembro que tinha olheiras, daquelas que dão vontade de perguntar o o que foi que a magoavam, longos cabelos castanhos, seios de virgem e mãos de fada. Dentro do elevador uma musiquinha infernal dizia que "eu não sei parar de te olhar..."

Gozado, eu sempre olhei primeiro pras pernas e pras bundas das mulheres, mas dessa vez prestei um pouco mais de atençao nas mãos dela. Talvez tenha sido porque naquele apertamento não havia como olhar o restante do seu corpo. Eu olhava pro chão, mortinho de vergonha, e via as mãos dela pertinho das minhas pernas. Eram brancas, mas não mortiças, tinham uma capacidade de matar uma pessoa só acariciando. E o elevador subindo, parando a cada andar e despejando, vagarosamente, uma ou duas pessoas a cada lance de escada. O curioso é que, quanto mais o elevador ganhava altura, quanto mais as pessoas saíam, mais a mulher se aconchegava em mim e mais eu me enlevava por aquelas mãos. Não sei por quanto tempo fiquei ali olhando as mãos dela, até que nos deparamos numa solidão esquisita, todo mundo já tinha saído do elevador, eu já havia passado do meu andar e ela, provavelmente, também já tinha ultrapassado a vida que a esperava num lance de escadas qualquer. Estávamos ligados, unidos, indevassavelmente algemados pela vontade que ela tinha de me acariciar. Descobri isso tarde demais, depois que o estupor arrefeceu.

Ela sabia do poder que tinha nas mãos, sabia que tinha me enfeitiçado com aquelas garras de pardal, mas esqueceu-se de que, após subir tudo que podia ter subido, o elevador desceria num galope mágico, sem parar em nenhum andar, indiferente à tragédia que nos unia.

No térreo, ela ainda tentou tomar as minhas mãos nas dela. Mas já era tarde, a magia já tinha se esboroado numa simples volta ao presente.

Naquele dia eu não voltei pra trabalhar e no dia seguinte o meu chefe pagou um sapo dinossáurico pra mim pela falta.

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Elegia para Diana

A violência da chuva
lava minha alma
e molha minhas palavras;
goteja nos meus erros
e envereda pelas minhas dores.

Nada te direi
que você ainda não tenha ouvido,
nem nada te farei
que você ainda não tenha gozado.

Então te farei viver algo novo,
revisitar emoções antigas,
ser menina uma vez mais,
de novo sentir a paixão
há muito guardada no baú das desesperanças,
brincar de roda
e querer ser virgem ainda.

Só pra mim, só pra mim, só pra mim...